Wednesday, February 18, 2009

Gastronomia Portuguesa à la Ferdinand

"Subo a íngreme Calçada da Glória pelo lado dos carris do funicular, com as solas de pele escorregando das pedras da calçada que são como cubos irregulares de gelo vulcânico.
Falha-me um pé e agarro-me ao corrimão partido. Esta ravina urbana espartilha dramaticamente a cidade velha de Lisboa. As paredes estão cobertas de graffiti em gatafunhos tipo esparguete enrolado com cores anarquistas de sprays.
Encontro-me com o Parker à porta do Alfaia na esquina da Rua do Diário de Notícias e da Travessa da Queimada. A cadeira de alumínio onde me sento está de tal forma inclinada que me faz escorregar para o espaldar.
Trazem-nos à mesa uma selecção de queijos, presunto e azeitonas. Vale a pena ir a Lisba só para comer queijo de Azeitão. A casca velha, envolta em gaze muçulmana, parece a pele de uma múmia egípcia.
Cortaram-lhe uma tampa na parte de cima e traz uma colherzinha espetada no interior cremoso. É feito numa terra um pouco a Sul, perto da serra e do litoral, a partir de leite de ovelha cru e não pasteurizado, com cardo em vez de coalho.
Barramo-lo como mel em fatias de pão fresco e a sua doce pungência dilata-nos as narinas, forrando-nos o tecto das bocas.
Surge uma travessa roxa de polvo, temperada com um picante suave. O Parker fala-me na escala de Scoville, usada para classificar os picantes. Uma pimenta jalapeno tem cerca de 3.000 pontos e um pimento vermelho zero. O que comemos só perfaz umas duas centenas.
À nossa direita fica a janela da cozinha. Filas de metais contemplam, na nossa direcção, as fotografias desbotadas dos penteados do ano passado na montra do cabeleireiro do outro lado da rua.
O chefe vê-nos e enfia o polegar e o indicador nos olhos de um salmão do mar de nariz atrevido, segurando-o para o podermos ver, abrindo as guelras num sorriso escancarado.
Pedimos peixe. A Caldeira de Peixes do Mar é descrita como "diferentes pedaços de peixe cortados aos bocadinhos e cozinhados em tomate, cebola, alho, vinho branco, pimentos, com batata a acompanhar".
Nacos grosseiros de peixe desconhecido nadam num molho com um sabor rico de ter estado a refogar de um dia para o outro. Para o caso de as batatas amarelas não terem absorvido todos os sabores, há fatias esponjosas de pão no fundo, debaixo dos ossos.
Raspamos a última colher da casca do Azeitão. Entornamos a última gota do vinho tinto. As pedras da calçada parecem mais escorregadias a descer."

Tuesday, February 17, 2009

Neonsychosis

Enfermidade rara que se adquire nos trópicos sonoros, revestindo-se de febres e delírios sónicos, responsável pelo síndrome dos 3 R's: replays, repeats e retreats sonoros que se iniciam, muitas vezes, pela audição reiterada destas estirpes.

Wednesday, February 11, 2009

O meu "Top 15"

Consta que Aristóteles terá dito, um dia, nos arredores de 350 a.c., que "dois amigos são uma mesma alma vivendo em dois corpos". Sorte a do filósofo não ter vivido a época tecnológica de hoje. Gostava de vê-lo enfrentar o desafio de alterar o seu tarifário de telemóvel e compor uma listagem de 15 almas preferenciais vivendo em 15 telemóveis diferentes. "Uma mesma alma"? Lol. Props po ppl da Grec.
Há muito me habituei a fazer "rankings". Graças ao "factor High Fidelity/Nick Hornby", consigo hoje aplicar uma série de princípios que me permitem, em meia dúzia de minutos, esgalhar um qualquer "top 5" de músicas, filmes, álbuns, clubes, jogadores, actores, comidas, bebidas, destinos, whatever. É simples, é ordenar preferências num exercício que não compromete. E que pode sempre ser alterado com a justificação do "ah!, esqueci-me desse".
Mas hoje tive de fazer um "ranking" diferente. Um "top 15" de contactos de telemóvel que passam a integrar a minha rede de chamadas com um custo mais barato. Independentemente da rede. É a amizade "powered by Optimus".
Confesso que me senti mal. A meia hora que dediquei à tarefa soou-me a pura instrumentalização de laços afectivos. 15 pessoas.
A família próxima é cabeça de série, tem direito a pote especial, ocupa 3 lugares.
A família menos próxima preenche o pote 2, ocupa 3 lugares.
Sobram 9.
Há os amigos. Há os "amigos".
Há os contactos obrigatórios, por mais frequentes.
Há os outros contactos mais dispensáveis, por poderem ser feitos por segundas vias.
Há 9 lugares.
Há mais pessoas do que lugares.
Este é mais amigo que aquele? E para este, ligo mais do que para aquele?
Este gajo é fixe. Mas é amigo?
Basicamente dei por mim a pensar, lá no alto da arrogância que a Optimus me ofertou, em quem é que merecia, ou não, estar no meu "top 15 de telemóvel". Um luxo, portanto. Uma espécie de Deus. Da minha lista de telemóvel.
Razão e coração em cima da mesa.
Carteira e sentimentos em equação.
Lá fiz a puta da lista.
15 pessoas.
Que me custarão, a partir de agora, € 0,159 por minuto. Em 90% dos casos, passo a pagar menos € 0,390 por minuto.
É a minha lista.
E deixou-me a pensar na vida.

Monday, February 02, 2009

O mito do escarafaboncho



Pergunto ao chão quantas vezes comeu a sopa hoje

Ladra um miar bem alto e chateado

E o peixe sem escamas que voa para um ponto

Negro e reluzente como a luz dum farol apagado


Thursday, January 29, 2009

Merda!

Vila-Matas criou uma personagem que surripiava a intimidade e as conversas dos outros, num autocarro específico de Barcelona. Era essa a minha esperança para Ermenudeu Lá Lá, mas num registo diferente, mais trágico. Ermenudeu esperava que, em cada paragem, entrasse uma gaja boa, ainda mais porque nenhum dos veículos que frequentava tinha por destino a Amadora. Mas, para seu azar, aquilo era uma pilha frenética de velhos a entrar, todos muito reumáticos, curvados e apoiados em bengalas.

Um deles, chegou a atirar o seu último dente, um molar, à fronha do condutor. Outro, muito nervoso, chorava de comoção ao avistar o Santa Maria. «Estou salvo». E, com isto, Ermenudeu conveceu-se que o mundo não é perfeito e passou a andar de metro. Sem resultado, pois os cegos substituíram os velhos, e as garrafas de água do Luso a chocalhar moedas o odor fétido de Xano, o agarrado, sempre prostrado no banco de trás.

O mundo é um lugar estranho, sempre cheio de obstáculos à ordem de homens sensíveis como Ermenudeu. Estranho, quando não ausente, porque a maior dor de Ermenudeu era que a sua vida fosse sempre feita de expectativas, não as suas; mais grave, a dos outros. Sempre os outros, porque mesmo os Xanos, ainda que por minutos, acabam por ter algum pendor na impostura que é esta presuntiva tentativa de vida, aliás de fôlego, sem que a asma (me, te, vos) condene. (aqui, uso a asma como expressão figurada da morte em vida)

Agora eu já sei...

Da onda que se ergueu no mar...

Sunday, January 25, 2009

I heard she...

Imaginem que era sempre a mesma pessoa.
As situações mudavam, nos contextos. Os nomes alteravam-se. Sucediam-se. As pessoas, os nomes e os contextos. As personalidades, formas e feições também. Mudavam. Mas imaginem que era sempre a mesma pessoa. Uma espécie de transcendência destinada. A mesma pessoa.
E por isso a história repetia-se. Porque era sempre ela.
É disto que me lembro quando ouço o “Heartbreaker” dos Metronomy.
Idiotices.
[http://www.youtube.com/watch?v=MsduHmjQlgI]

Friday, January 23, 2009

Ermenudeu Lá Lá...

a minha póxima personagem.

Monday, January 19, 2009

Benoit Pioulard,

Cancro

João Aguardela
(1969-2009)

Thursday, January 15, 2009

O mito do escarafaboncho

Na penumbra do além,
sirvo três profiteroles
Sozinho, não vejo quem
Mos coma antes de ficarem moles
(Ditado peruano, cantado pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso, antes de atacarem as carrinhas de transporte de pão)

Tuesday, January 13, 2009

Friday, January 09, 2009

Monday, January 05, 2009

Punk Rock (ou outras coisas)

"When I'm in the grips of it I don't feel pleasure and I don't feel pain, either physically or emotionally. Do you understand what I'm talking about? Have you ever felt like that? When you just couldn't feel anything and you didn't want to either. You know? Like that? Do you understand what I'm saying sir?"

Entrevista de Iggy Pop "musicada" pelos Mogway

Sunday, January 04, 2009

Ontem...

senti muito, muito, muito, e de tanto sentir, acabei por descobrir que também...sinto. sinto tanto, tanto, tanto, que sou diferente, humanamente diferente, intransigentemente diferente; sim, porque o mundo é uma merda, e só eu sinto, eu e os que estão comigo aliás. Sentimos as imagens, os sons; epicuro. os arrebatamentos artísticos são nossos e de mais ninguém. Os outros não entendem, de tão embrenhados que estão no Capital. Nós sentimos, eu sinto, mas vocês não sentem. Nós sentimos a arte com o estômago, com fome ninguém sente, mas com beringelas macrobióticas sentimos, e sentimos muito, não pensem. Tudo começou quando li, lemos, aliás - ai este meu devaneio e-gótico - o Capital de Marx...aos quadradinhos - existe, existe, sim senhor, porque não pensem que o povo iria ficar imprudentemente inculto, sem nada para ler, sem façanhas com que sonhar, sem facetas para explorar. continuemos, porque a malta esquerdalha não é incauta.
Cada quadrado, um capítulo, e cada página um tomo. Feitas as correspondências, é somar os tomos e temos o número de páginas do Capital dado ao povo, mais vernáculo, mas nem por isso menos erudito. Sinto, os meus amigos sentem, sentimos, com os olhos, c'os dedos, c'a boca, e c'o nariz, mesmo quando algo constipados e com a gripe. nem a sinusite nos tolda e maltrata os sentidos. Feita a crítica da faculdade do juízo, o génio artístico apodera-se-me, nos, e não vos. Achei que, aqui, ficava bem uma referência a Kant, porque eu sinto. eu sinto, prontos, portantes, a modos que...eu sinto, sentimos, e é bom descobrir que, no fundo, há um sentir profundo em cada um de nós, um sentir que mais ninguém sente; eu sinto, nós sentimos, eu sentirei, nós sentiremos, e por aí adiante...sentir

I'm a victim of this song