Acabei de passar pela Íntima e fiquei nostálgico ao ver aquele que é agora para mim o senhor Lloyd Cole. Tenho saudades daqueles tempos de descobertas quando nos meus olhos ainda raiava o brilho das noites luminosas. E o «tinha o ar provável de um pós-moderno» a que o Francisco faz referência, fez-me esboçar um sorriso. Será que sem saber não foi o Foucault, o Lyotard, o Baudrillard que me influenciaram, mas sim a música que me fazia sonhar e ser feliz? E não vou encarar isto como uma Recherche Proustiana. Bom, parece que estamos de volta. Aqui vai uma das minhas preferidas, cut me down:
Tuesday, December 05, 2006
Monday, December 04, 2006
O concerto...
Agrada-me que, mesmo assim, tenha boa reputação perante a crítica e respeito em geral no meio musical.
Agrada-me que seja uma banda capaz de uma versatilidade musical dentro do espartilho rock alternativo a que foi catalogada.
Agrada-me saber tratar-se de uma banda que se dá por satisfeita em gravar o seu disco e que este será sempre bem recebido e comemorado por aqueles poucos que acompanham fielmente a sua carreira.
É que não dá para enganar. Há pérolas a descobrir e prazer em partilhá-las e dá-las a conhecer.
E se o fazem nos seus álbuns, o mesmo acontece ao vivo. Falo de canções que não fariam parte do meu repertório a ouvir mas que, através de uma nova roupagem ou apenas porque ao vivo resultam muito melhor, transformam a ideia que tinha delas. Exemplos claros disso são o primeiro single, Mr. Tough, extraído do novo álbum ou uma das 4 versões que fizeram de Nuclear War de Sun-Ra. Principalmente esta última, que cria tal empatia com o público que não podemos ficar indiferentes ao final do concerto, antes dos 4 encores da banda, a bater palmas na sua retirada para o backstage, descendo do palco em direcção a uma das saídas laterais e passando por um público que os acompanha até que voltem para mais!
Voltando ao início do concerto, passam 15 minutos das 21h00 e o nosso Quim Zofrénico e eu, feitos dois velhos marretas, vociferamos a falta de pontualidade e o desrespeito por quem no dia seguinte trabalha e nos obriga a ir a um concerto num Domingo. Isto, para além dos comentários que se ouvem por se estar num concerto destes na sentada Aula Magna, Mas aqui discordo. Acho que ninguém está impedido de ir para um dos seus corredores abanar a anca ou mesmo esquizofrenar aquando dos delírios das guitarras de Kaplan.
Começa o concerto e não restam dúvidas! Nada melhor que estar refastelado na minha cadeira a ouvir o sussurro da voz ao ritmo da limpeza da vassoura que jaz(z) na bateria. Um belo início ao som de Our way to fall.
É nesta vertente, a mais calma, que me derreto. Principalmente se for a Georgia Hubley a cantar. Ainda hei-de escrever sobre as vozes femininas que mexem comigo. Esta, está lá no topo pela sua beleza e simplicidade. Acho que é a partir do momento em que canta a solo algumas músicas, deixando o backing-vocal dos primeiros álbuns, que muda de maneira um pouco mais sensível a direcção da sua sonoridade. Surge a melodia e delicadeza que transforma a overdose de guitarra inicial em mesclas sónico-doces, tranquilas e intimistas, aperfeiçoadas até às canções mais belas que já ouvi. A par destas, só as instrumentais hipnóticas e envolventes que instituem novas texturas, microfonias e atmosferas ao seu som. Mas uma Green arrow ao vivo seria pedir demais. Pelo meio, e revezando-se uns aos outros, ficaram os três riffs do punk, a tristeza bela de alguns temas, o desvario do feedback e mesmo um órgão tresloucado.
Adorei o silêncio e a doçura de I feel like going home, ainda melhor ao vivo, e o final, de novo com Georgia a dar voz a I found a reason dos Velvet Underground. Não antes de tentares dar por terminado o seu último concerto da tour com um final natalício, de rock n' roll Santa, ou na vertente de discos pedidos com os Beach boys.
Mas todas as suas tentativas esbarravam contra o público que pedia por mais. E claro, em vinte e tal anos de carreira, fica sempre qualquer coisa por tocar. Lembro o gozo que me deu acompanhar You can´t have it all, ao vivo, noutra ocasião, e que nesta noite teria tido certamente o mesmo efeito. Naquela noite, até fizeram uma coreografia propositadamente brega adorável em que, no final, formavam um coração com os braços. Igualmente o chorinho brasileiro de Center of gravity faria sorrir, como só a bossa nova faz.
Nesta noite, as músicas foram outras, mas sempre com o mesmo improviso, diversão e à vontade. E, o que interessa, é que mesmo sem esta ou aquela, em mais de duas horas, eles tiveram-nos mesmo na mão.
Quanto a mim e quanto a este concerto, yo lo tengo na memória. Take care...
Thursday, November 30, 2006
Entrada numa futura enciclopédia literária

Numa viagem ao futuro foi encontrada uma entrada numa enciclopédia erudita sobre a nova geração de 70 em Portugal; esqueçam lá os Anteros que, de momento, o que importa é essa corrente que se tornou vanguardista quando já ninguém acreditava em vanguardas pelo facto da pós-modernidade ser considerada como a Era do «isso já foi feito», com uma propensão vincadíssima para o pastiche, como foi referido por Frederic Jameson num livro que já li em tempos, mas que, de momento, não me recordo o nome. Dessa entrada consta o seguinte:
A nova geração de 70 que nos circuitos de sociabilidade mais populares era comummente referida como a geração enrabada e pelos germanistas - refiro-me àquele chato que escrevia textos intragáveis no Mil Folhas, João Barrento - como a "enrabada Erzeugung" é, a todos os títulos, a geração literária mais insólita e inovadora desde a aparição dos modernistas em Portugal. Apesar de terem crescido e vivido num contexto histórico de enganos, ilusões e equívocos, os seus membros, ao contrário dos neo-realistas, não transpuseram para a sua obra nem temas nem conteúdos de cariz político e social, tendo chegado mesmo a criar alguma aversão àquilo que os franceses designam por escritor engagé, figura tão defendida pelo existencialista zarolho Sartre que, por sinal, teve um funeral mais aparatoso em termos de adesão popular do que a Amália, o Cunhal e o Eusébio. São estas injustiças que vão manchando a marcha da história e nos vão provando que, afinal, o Homem é uma criatura imperfeita que se aproxima menos de Deus do que dum esgoto rodeado por Fubus de chapéus da Nike na Buraca.
Mas voltemos ao que realmente interessa. Nascidos no período revolucionário em Portugal, os membros dessa geração que não pertenciam à Noblesse d'État cresceram, contrariamente a muitas das gerações anteriores, na estúpida ilusão que isto de vingar na vida não era só ler, escrever e contar e, em vez de terem aderido em massa aos trabalhos rudes do campo que continuassem a fazer prevalecer a sua imagem de Homo Broncus de unhaca grande no dedo mindinho, típico das terras lusitanas, trilharam o caminho da sabedoria e do conhecimento que a geração anterior, já bem instalada na vida, os fez acreditar que iria conduzir o país rumo à modernidade e à bonança. Mas eis que já maduros, após a invariável leitura de autores importados, porque os de cá, como sempre, produzem as suas obras como espécies de compilações de notas de rodapé de autores estrangeiros, chegam à triste constatação que o ideário da Terceira República não passou de mais um malogro histórico deste país já tão habituado a Condes da Ericeira e a desaires suicidários. Já conscientes que a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo, curiosamente descendente de portugueses, estaria para durar, aperceberam-se que, ao nível da tecnologia, o melhor era deixar a coisa para quem realmente a soubesse fazer, como os japoneses, os americanos, os filandeses e até mesmo os espanhóis, e contentarem-se com as ridículas descobertas científicas dos investigadores portugueses, normalmente relacionadas com a forma mais ergonómica de fazer ressonâncias magnéticas de modo a descobrir-se o bacilo de Bremen na zona lombar, de Bremen, precisamente por ter sido descoberto nesta cidade hanseática alemã.
De tudo o que foi aqui dito, deduz-se que, inversamente ao que lhes fora prometido, continuaram a viver numa pobreza atávica, o que para estes marginais da sempre anacrónica Noblesse d'État portuguesa, constituiu-se como uma oportunidade única para se lançarem na mais destemida aventura demiúrgica de que há memória em Portugal. Tiradas as informais fotografias, como o fizeram os surrealistas em França, lançaram mãos à obra e fizeram desabrochar o seu génio, todo ele carregado por uma espécie de revolta resignada. E as perguntas que se impõem por agora são as seguintes: será que a impostura por eles vivida fez com que se tornassem escritores revolucionários com ambições de mudar o status quo tipicamente nepotista da sociedade portuguesa? A resposta descamba aqui num rotundo não; será que esse mesmo contexto favoreceu a criação de uma nova geração de vencidos da vida? A resposta descamba de novo para outro não menos rotundo não; então de que era, afinal, constituída essa cepa de diabólicos escritores? A esta última pergunta não há resposta consensual possível, visto que vivendo em condições propícias para uma nova espécie de realismo literário, refractaram-se estranhamente a essa via e, em vez de temas tão clássicos como a iniquidade e a corrupção perpétua existente no seio da sociedade portuguesa, resolveram sublimar a coisa e num estilo estranhamente metafórico para uma sociedade aberta, enveredaram por temas tão insólitos como o fazer cócó Edipiano, ou seja: «estou-me já a cagar para a política e para a figura do pai e nosso Deus que é o Estado»; betoneiras libidinosas em homenagem ao autor de culto desta geração, a saber, o magno e não menos excêntrico Karl Butolwsky; sanitas voadoras que indicavam o desejo recalcado de que toda a excrescência existente por cá fizesse uma volta ao mundo não em 80, mas nos restantes dias da sua acabrunhada existência, e assim por diante. É claro que este grupo literário sempre recusou estas interpretações de vinculação política, porém, os mais engenhosos exegetas não deixaram de atribuir a estes excelsos conteúdos metáforas de carácter político e ideológico. Para finalizar o artigo, há ainda a referir que assim como eram originais no estilo e no conteúdo, também eram irascíveis na forma como tratavam os seus adversários, tendo ficado célebre o episódio em que após ter sido comunicado por mail a um dos seus membros a recusa de uma oferta emprego, este recorre ao mentor Butolwsky e responde citando-o da seguinte forma: «O triunfo seminal de cada conquista encontra-se no crepúsculo das coisas desordenadamente equivalentes». Embora lhes fosse alheia na propriedade, não tendo sido pagos os respectivos direitos de autor à família Butolwsky, esta frase constituiu-se como o cânone maior e eterno desta geração drasticamente simbólica.
Monday, November 27, 2006
Quando soube, fiquei sinceramente triste
Adeus, nosso querido e rebelde surrealista. Só tu poderias criar um poema tão belo como este:entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barco
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar"
Mário Cesariny
Saturday, November 25, 2006
O enterro de FP
Acho tremenda piada que digam que não gostam de apanhar com dub em cima. Bem sei que depois de mais um verão a ouvir, noite após noite, no bar das capirinhas e não só, reggae de terceira mal amanhado em álbuns repetidos do início ao fim, os ouvidinhos começam a queixar-se. Mas daí, até pôr tudo no mesmo saco vai uma distância. Embora o FP saiba que há distinções a fazer e ambientes a separar, a verdade é que com os seus ódios de estimação, é tudo preto ou branco. Não há cá cinzentos, castanhos e o azul nem por sombras. Reggae é dub, dub é reggae e o resto é mais um exemplo da catalogagem imparável que obrigatoriamente tem que se fazer com tudo. Assim se faz com o ska, rocksteady, dancehall, roots, dub ou agora com a vertente do dubstep.
E, num sentido mais amplo, quanto a esta última forma de reggae, é engraçado quando me pergunta enquanto ouve no carro: ihhh, isto é Burial, é demaaais! Tu curtes?
Eu rio...
Como hoje não apetece escrever
Toob Live Show
Por vezes, eu e o Jorinhs temos estas partilhas salutares (desde que não me mandes com dub para cima, sempre tudo ok!). Ele deu a boa nova de Tobin, eu mostrei-lhe este som que considero a todos os níveis brilhante. Eu diria mais, orgiático, para usar um vocabulário mais ao meu estilo. E, como hoje, não estou com cabeça para escrever, nada como partilhar com os nossos poucos leitores coisas boas e que nos agradam. Sim, porque aqui na Trissomia a malta tem bom gosto. De qualquer das formas, para a Isa e para o Jorinhs, está prometidíssimo o post sobre os Fubus e sobre a Nikita. É que a coisa tem de ficar esmerada porque esta Nikita merece. Quem se eleva a esse estatuto, merece da minha parte todos os panegíricos possíveis Coisa rara!
Taxidermia
Tou com sorte... a espera aguenta-se com o single de estreia "Bloodstone" do seu novo álbum e com esta Hungrice de Gyorgy Palfi.
Um grotesco conto de três gerações de homens de uma familia muito peculiar. Ao que parece, um deseja amor e dispara fogo do pénis, o outro sucesso como um obeso desportista do speed-eating e o taxidermista do filme que anseia a imortalidade.
Pois tá claro, a banda-sonora só podia ser Tobiniana...
Amon Tobin - Foley room
Génio da manipulação do som, Amon Tobin editará o seu novo álbum em Março do próximo ano. E, próprio dos teasers, este só pode estar a meter-se comigo. Não é que vou ter que ficar com esta batida a martelar na cabeça?!
Agora, os sons vêm da rua, gravados com microfones altamente sensíveis e vão desde as cordas do Kronos Quartet até às cantigas entre vizinhos durante o banho, ao rugir do tigre ou o simples som da formiga que come a relva ou dos gatos a refastelarem-se numa refeição de ratos.
Depois, só como o brasuca sabe, tudo é partido, desmontado e, como que numa fábrica de "asamplagem", as peças distorcidas unem-se entre batidas frenéticas ou jazzísticas, produzindo os ambientes únicos a que nos habitou.
Todo o processo estará documentado o que torna ainda mais interessante descobrir os segredos por detrás dos sons.
Despacha-te Março!
Friday, November 24, 2006
Correcção
Um dos posts anteriores continha uns quantos erros que já emendei. São os efeitos da escrita com raiva.
Proposição das espécies
Aquela coisa do «ela não a vê contigo» é uma maldição teórica da qual nenhum homem jamais conseguirá escapar. O «ela não a vê contigo» até poderia ser uma novela assim a dar para o saloio da TVI com todos aqueles jogos de luta de classes (curioso irem buscar o modelo marxista para escrever argumentos que estão na cabeça de toda a gente), mas não é. A realidade assim o prova, porque quando existe a asserção de que «ela não a vê contigo» estamos perante uma verdadeira evidência epistemológica, uma teoria da verdade que nem a irrefutabilidade das hipóteses Popperiana poderá contra-argumentar. Ou seja, o «ela não a vê contigo» é aquela blindagem produzida pelo superego de muita gente que não se dá ao trabalho de fornicar convenientemente e apenas se vê na situação ad eternum de manter a aparência inócua da sua existência. E as coisas são mesmo assim. Quando se trata de coisas inócuas, não existe contra-evidência possível, não existe uma produção de irracionalismo que ali chegue porque as coisas já são tão evidentes que a teoria das espécies assim como começa termina logo ali.
Quando estas coisas nos chegam à cabeça, nada como adormecer embalado pelo infame filólogo alemão dos bigodes - Also Sprach Zaratustra - porque o irracionalismo é o belo e terrível emergir da fissura pendente.
Thursday, November 23, 2006
Alegações...
Redundâncias pelo...

O Comité para a Redução da Redundância e Anti-Proliferação da Repetição decidiu não se reunir antes de terem a sua primeira reunião e, assim, não se reunirão antes de se reunirem pela primeira vez.
Deixam aqui o seu primeiro comunicado com mais uma pérola jornalística:
"Tomem atenção porque parece que o tempo vai piorar este fim-de-semana. Especialmente Sábado e Domingo."
Tomarei. Normalmente não faço favores, a não ser que mos peçam. Assim, antes de sair de casa, estarei de olhos postos no céu, a ver se chove. Às vezes, consegue-se observar imenso apenas olhando.
Wednesday, November 22, 2006
Conversas na paragem de autocarro

Hoje de manhã, na paragem do autocarro, ouvi o seguinte diálogo entre duas senhoras na casa dos 40 anos (deduzo que falassem da filha de uma delas):
(...)
- E já não se dão?
- Acho que não... E o rapaz até era comando, já viste?! O que é que ela pode querer mais?
Não tive coragem de intervir, confesso. Mas apenas porque não me ocorreu uma resposta suficientemente boa para ajudar a dissipar a dúvida da senhora. Se quiserem ajudar-me com algumas sugestões, agradeço. Pode ser que amanhã volte a cruzar-me com ela e assim posso dar-lhe umas vagas noções do que uma mulher pode querer mais. Se é que é possível querer-se mais.
(...)
- E já não se dão?
- Acho que não... E o rapaz até era comando, já viste?! O que é que ela pode querer mais?
Não tive coragem de intervir, confesso. Mas apenas porque não me ocorreu uma resposta suficientemente boa para ajudar a dissipar a dúvida da senhora. Se quiserem ajudar-me com algumas sugestões, agradeço. Pode ser que amanhã volte a cruzar-me com ela e assim posso dar-lhe umas vagas noções do que uma mulher pode querer mais. Se é que é possível querer-se mais.
Tuesday, November 21, 2006
Sessão da noite... Don Don Don
Foi em 2000, que não estreiou o filme de mais um trânsfuga que, como outros que surgiram nesta altura, marcavam a diferença como realizadores publicitários ou de telediscos e deram o salto cinematográfico. Jonathan Glazer e companhia sabiam mais do que apenas embrulhar de maneira espectacular, em regra, hora e meia, o maior dos vazios, sem saber o que fazer com o tempo que lhes foi concedido e mantendo-se fechados no laboratório formal e narrativo da publicidade e dos video-clips.E, quando não é a história a desafiar as convenções, basta um outro olhar para a diferenciar das restantes. Veja-se o tão banalizado tema do relutante "one last job". Aqui, a obrigação chama-se Don Logan, o persuasor! E a ele obedece-se! Ben Kingsley é o Ghandi do diabo!
Filmam-se pessoas, histórias que vão para além do golpe. Depois, alia-se a imagem ao som, aplicando uma banda-sonora ideal para transmitir a tensão e receio até ao fim. Pelo meio, pequenos toques na arte de filmar fazem o truque e integram forma e função, estilo e conteúdo, numa linguagem própria, cuidado visual e estetismo impecável.
Do melhor que já foi feito e ainda melhor interpretado, mas não para nós...
P.S. - Ouçam os sons do psicopata Kingsley e nos próximos posts exemplos do trabalho de Glazer em videoclip e anúncio...
O meu amigo...
Muita gente pensa que ser gago é algo de mau, um impedimento complicado. Para mim, é como se antes de cada palavra que se esforça por sair, se ouvisse o rufar dos tambores! Subitamente, tudo o que ele tem para dizer, por mais cretino que seja, torna-se na coisa mais importante do mundo. A curiosidade não permite o desvio, toda a nossa atenção é focada para aquela palavra, a última, a que remata o assunto, que nos dá a resposta para este filme de suspense! E o interesse é tal, que partilhamos a dúvida! Entramos num jogo de charadas, bitando palavras como que dois gémeos dizigóticos, até que por fim surge o alívio da solução. E acreditem que nela reside sempre um prazer, mais que não seja porque toda a ansiedade desvanece!É um jogo, é um filme... e se gostarem de musicais, é pedir pó gajo cantar... no meu caso foi:
Jorinhs, que merda de pi... pi... (pizza? piano? piloto? pintor?) pi... piada! Pois...
Monday, November 20, 2006
afinidade
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