Monday, November 20, 2006

da impossibilidade de amar

Se, hoje, isto de morrer for mais um pouco
fica à espera
que as pedras que trago comigo
sejam o túmulo
do nosso rosto para sempre separado

A controversa Sally Mann


Para quem gosta de fotografia, o trabalho de Sally Mann nunca poderá passar despercebido. As fotografias são de uma beleza contagiante e transbordante, transmitindo muitas vezes algo que está para lá de nós. Sally fez muitos dos seus trabalhos com os seus filhos, conferiu-lhes uma personalidade singular e, por causa disso mesmo, a sua fotografia tornou-se controversa. Os conservadores americanos, com a sua visão sempre boçal e estupidamente puritana das coisas, afirmaram que as fotografias eram escandalosas por se tratar de pura pornografia infantil. Outros, que defendem a fotógrafa, afirmam que as imagens transmitem pureza, o que também não concordo. O que acho é que ao observarmos as imagens, percebemos que já existem contornos e detalhes que atribuem uma maturidade invulgar para uma criança, seja pelo olhar, seja pelo gesto de uma mão. Se Sally Mann erotizou as crianças, fê-lo muito bem, pois não é por vivermos numa sociedade de espartilhos paranóicos que vamos destituir o belo que já existe por si em algumas crianças. Ou queriam que ela as fotografasse com umas blusas às listinhas e uma antenas da abelha Maia? Poupem-me o espírito e a sensibilidade, por favor! O belo é o belo e é para isso que a arte existe. São coisas que já remontam a Platão.

Saturday, November 18, 2006

as crianças

Adam Moore retrata os paradoxos. Como nalgumas imagens do metro de Moscovo, com figuras rústicas e meio mortas, pela sua herança histórica, no meio da modernidade, ou num edifício em ruínas em Berlim - contradição mais gingantesca da união alemã e, no entanto, o legado terrível do seu imperialismo -, aqui, o fotógrafo capta duas figuras: de uma, emana a esperança, da outra, a ausência pura e terrível do olhar que se perde apenas por si. E, ao fundo, temos o rosto da criança que já não é criança e que, no entanto, está no centro, a retirar todo o significado àquilo que os outros dois pretenderão ou não quererão ser.

o corpo outro sem corpo


Alexey Nikishin, capta o corpo como uma máquina, como uma máquina que capta o corpo, como se os orgãos se tornassem híbridos, como se a função explícita estivesse na função latente. Nikishin, aqui, mata, no instante, o corpo com os seus orgãos, fá-los desaparecer e coloca-os aleatoriamente noutro lugar. é essa a estética contemporânea, os corpos terão sempre de andar de forma combinatória com as máquinas.

Tuesday, November 14, 2006

A Família Butolwsky - um projecto para livro

A tese de doutoramento mais polémica dos últimos tempos, curiosamente, não veio de França. Foi acabada de redigir em 1999 por Hans Mann Butolwsky e discutida seis meses mais tarde na reputadíssima Universidade de Heidelberg, onde o seu avô, ainda antes da chegada de Hitler ao poder, já havia ficado célebre com a tese "Os Indivíduos em Concreto - Processos Metafísicos de uma Betoneira Libidinosa».

Karl Butolwsky era um rude Bávaro que, muito embora tivesse tiques de erudito, adorava nas suas férias académicas, quando ainda era assistente de Husserl, ir ordenhar vacas para os Países Baixos, onde se deleitava a pregar valentes palmadas no rabo daquelas roliças holandesas. Conhecedora do feitio folgado do marido, Hannah Butolwsky, filha de um industrial de Munique, quando assistia a estas excentricidades, esboçava um tímido encolher de ombros e continuava como se nada fosse, pois do seu amor nascia a compreensão que era através destes actos de loucura que Karl ganharia a inspiração necessária para rebater em breve todas as teses de Freud. A sua excentricidade ia ao ponto de gritar a plenos pulmões que Freud era um cretino logo após dar uma valente apalpadela no cu de Miki, a rapariga branquinha e de faces rosadas que tratava das vacas na fazenda onde o casal alemão se instalava durante o seu descanso sazonal, desculpando-se depois que lhe causava repugnância ver moscas a rondar e a pousar nas partes mais singelas da moça, pois trazia-lhe à imaginação o famoso médico Vienense a defecar.
Todo este ódio, que alguns dos seus colegas consideravam incompreensível e até escusado, era tão só proveniente do facto de Freud, embora sem sucesso, ter andado a cortejar a famosa e bela Lou Andreas Salomé, o que para Karl constituía um atentado civilizacional, visto que, segundo o seu ponto de vista, o pai da psicanálise não passava de uma reles criatura que dada a penúria na qual vivera na infância, teria criado aquelas teorias ridículas para justificar o seu complexo de inferioridade relativamente aos grandes homens que tinham fundado os alicerces da cultura alemã, tais como, Kant e Goethe. Embora amasse Hannah de uma forma que eu, como narrador, classificaria de amena para a época, quer pela sua imaculada beleza, quer por saber tocar piano e falar francês de forma irrepreensível, Butolwsky sempre que pensava na bela intelectual russa entrava num estado de profunda apatia intelectual e, no paroxismo da letargia, chegava mesmo a confundir Bismarck com Nicolau II, o que para um intelectual alemão tão promissor fazia levantar algumas suspeitas quanto ao futuro e credibilidade da sua obra. Porém, como diz o ditado, por detrás de um grande homem está uma grande mulher, e sempre que ele entrava neste desvario, Hannah berrava-lhe aos ouvidos com um: -«Arrete, Karl, arrete», o que já constituía o prenúncio lexical daquilo que viria a ser, trinta anos mais tarde, prática corrente desse povo exótico situado no extremo ocidental da Europa e que, pelas circunstâncias da fome se viu obrigado a emigrar para a Belle France, ficando até hoje por provar por parte dos antropólogos se chegou a haver esse espantoso processo de sincretismo cultural no que ao croissant com linguiça diz respeito.
[Esta espantosa estória terá continuação num próximo post ou, quem sabe, quando eu a terminar e já estiver composta por nada mais nada menos do que 487 Páginas, vê-la-ão publicada no mini-mercado mais próximo da vossa casa, precisamente, junto à secção dos enchidos].

Monday, November 13, 2006

Finalmente


A Relógio D'Água, cujo trabalho editorial não me canso de elogiar, começa, finalmente, a traduzir um autor que dizem ter tanto de estimulante como de fascinante. Era uma grande lacuna no mercado livreiro português que está a ser agora justamente colmatada por aquela que considero ser a melhor editora portuguesa. Dele, só tive um dia na mão uma tradução brasileira, "O Mal-Estar da Pós-Modernidade" (se a memória não me atraiçoa, é este o título), mas, na altura, por estar com prazos apertados, não tive a oportunidade de o ler. Como este é dos poucos amores genuinamente não "líquidos" que tenho, irei, muito em breve, a correr loucamente para a livraria à procura da compreensão dos meus muito "líquidos" amores. Mas, pelo menos, assumo-o. Há quem não o faça e prefira viver numa longa agonia sentimental. Leiam e percebam o porquê da "economia" conjugal estar em crise.

Quando as ilusões acabam

De Oscar Wilde, saiu um dia qualquer coisa mais ou menos parecida com isto: «O homem que moraliza é, normalmente, um hipócrita». Por mim, digo que não teria sido necessário ler Wilde, pois já há muito que as minhas ilações haviam sido tiradas. É só olhar transversalmente para o tecido social e, quem sabe, se formos um pouco desapegados, um olhar de esguelha para as proximidades deixar-nos-á bastamente elucidados. Mas, por vezes, o melhor mesmo é não dar ouvidos aos grandes homens ou ainda corremos o risco de ficar reféns no erimitério do isolamento. Vão-me desculpar é esta última redudância, mas também elas são necessárias.

Sunday, November 12, 2006

Lenitivo da paixão

Quando estiverem prestes a cair no erro da paixão, do enamoramento, ou que raio se chama essa coisa, captem o melhor ângulo e memorizem apenas o aspecto mais tenebroso e negativo do alvo desse sentimento pérfido. A imagem servirá para vos dar apenas um pequeno empurrão...

Giles Revell


Chupa

Sempre na vanguarda, esta companhia espanhola, além de ter o design para o logo feito pelo surrealista Salvador Dalí, ainda consegue ombrear com a indústria tabaqueira. Foi na década de 80, derivado à baixa taxa de natalidade, que tentaram atrair a faixa adulta para o consumo deste produto. Para mim, conseguiram...

Ataraxia

De todos os "males" que a trissomia padece e que já aqui foram expostos directa ou indirectamente, acaba de me ser aplicado, como quem aplica um estalo, na testa, mais um rótulo: a impassibilidade.
Por um lado, agrada-me ser o sereno epicurista da tranquilidade da alma, da ausência de perturbação, sem transtornos e agitação, sem qualquer inquietação.
Por outro lado, identifico tais termos com a apatia, um estado acomodado, a pender para o catatónico.
Retiro a marca aplicada na testa e afirmo que o domínio de si, o estado de alma que, à primeira vista, se tornou estranho às desordens das paixões e insensível à dor, não rejeita a felicidade, não renuncia ao prazer e à dor. Cedo aos impulsos dos instintos como os demais, mas sou capaz de não exteriorizá-los, não os demonstrar, levando ao pensamento dos outros que me encontro desligado, quando apenas se trata de não permitir a perda do equilíbrio espiritual.
É que, já que as coisas não podem ser de outro modo, o mais sensato é apreciá-las como o são. E se gosto de dizer que me contento com pouco, digo-o no sentido do desfrutar das pequenas coisas e não necessitar de grandes feitos ou acontecimentos para me sentir bem.
Como Ricardo Reis, procuro simplesmente aderir ao momento presente, gozá-lo, sem nada mais pedir. Tal atitude não implica comodismo, apenas o prazer do agora, procurando, é certo sem grande esforço, algo mais.
Mas, sempre me disseram que nasci com o cú virado para a lua.
E eu, nunca discordei.

"Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele.
Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!"

Thursday, November 09, 2006

Este é o exemplo perfeito...


... de como uma boa ideia para capa de um jornal pode resumir na perfeição dezenas e dezenas de artigos de análise sociopolítica sobre um acontecimento. No caso, basta uma frase para explicar o porquê do resultado eleitoral que condenou o final de mandato de Bush a uma longa agonia governativa. Às vezes, a explicação mais simples é mesmo a que está correcta.

Uma proposta de contracapa...

“No momento em que tomou consciência da dimensão finita da condição humana, Ubaldo Enes Gonçalves sentiu baquear toda a estrutura que suportava a sua existência. Era a terceira vez que experimentava o fenómeno, com a curiosidade de este ocorrer sempre que acabava de comer alheiras na tasca do senhor Capela. Chegara, por isso, o momento de colocar um ponto final na teoria da coincidência: tornava-se por de mais evidente que o óleo utilizado pela dona Adelaide na fritura dos enchidos tinha o condão de desequilibrar o paradigma da sua essência moral. «Basta!», pensou. «Tenho de investigar esta tramóia». E assim o fez”.

Completamente desfasado do conteúdo do livro, o excerto supracitado configura uma perfeita idiotice, arriscando elevar esta contracapa à condição de momento mais cretino da história da literatura. Seja como for, é opinião unânime que qualquer contracapa fica mais ‘compostinha’ se estiver preenchida com uma mancha de texto. E esse é um feito que já ninguém lhes tira.

Wednesday, November 08, 2006

Mulher Portuguesa

Recebi este mail do Eduardo Esperança que foi meu professor na Universidade e que até hoje ainda me atura. Como gostei do mail e estimo muito quem mo enviou, atrevo-me a partilhá-lo. Aqui vai:
A Mulher Portuguesa

Passou ontem na RTP1 às 22.30, Maria Belo, psicóloga e psicanalista, grã-mestre da loja feminina do grande oriente lusitano em entrevista conduzida por Rui Ramos. Gostei de ver e ouvir.
Ver, porque há muito não a via, desde os idos inícios de 80, em que foi minha professora na Universidade Nova.
Gostei de ouvir e perceber alguém que conhece a cultura portuguesa por dentro, isto é, da experiência e vivência das pessoas que ela observa na rua e com quem fala no consultório. Alguém que se pode dar ao luxo de dissertar acerca da cultura, ao lado e por cima dos literatos, dos historiadores, dos importadores, com mão na genuinidade do que sobrevive no quotidiano e imaginário português.
Gostei de a ouvir falar da mulher portuguesa, do matriarcado nacional «por mais que isto custe às feministas» (sic) ; do peso que a família tem na vida portuguesa e, em particular, a mãe; da infantilidade a que os homens portugueses são reduzidos pelo modelo afectivo materno nacional. D'a mulher portuguesa que nunca chega a ser mulher porque passa directamente de "filha" a "mãe" (dos filhos e do marido).
Gostei de a ouvir falar do modo nacional de estar em "grupinho", e da gestão das fidelidades nos partidos, no trabalho (padrão de acção maternal dos portugueses) que entorpece as instituições e todos os tecidos de poder.
D'a mãe que tradicionalmente proíbe tudo e protege de tudo... e que vai buscar o filho à escola da "voz do operário", ele trás o bibe sujo e ela passa-lhe um tremendo raspanete - "ora, para que é que serve um bibe?!"
O modelo "banana" em que o homem português é encarcerado assim que entra em casa; da cultura portuguesa essencialmente popular e arcaica porque muito antiga, que digere mal todos os estrangeirismos; da fragilidade das elites, precisamente por isto; das espertezas de Salazar no modo de mobilizar as mulheres - o movimento nacional feminino durante a guerra colonial, em que madame Supico Pinto Y sus muchachas aparecem triunfais e resplandecentes a dirigirem-se às tropas e a voar de helicóptero sobre a mata e, do outro lado.... o soldadito, "adeus mãezinha, até ao meu regresso"!
D'a mãe minhota, que controla tudo em absoluto. D'a inépcia dos portugueses e portuguesas para gerirem o dinheiro - porque nunca o tiveram antes, e ninguém os ensinou. D'a mais recente geração que encontramos agora no Liceu e na Universidade, alheada de tudo, porque não recebeu nada, não quer receber, não sabe receber - quase impossível de ensinar - uma geração ao mesmo tempo hiper-protegida , mas esvaziada de toda a herança cultural e familiar.
Maria Belo está justamente preocupada com as jovens de hoje, que não sabem como vão desinvencilhar-se - como as mães, não sabem o que é ser mulher, mas o pior é que nem sequer aprenderam das mães a ser mães.
Gostei de a ouvir falar dos países mais desenvolvidos do norte da Europa, descendentes de civilizações ainda recentemente bárbaras, mais longe do Mediterrâneo, com culturas mais impostas e de repressão externa (do Estado), e que estão agora a deslocar-se para o "feminino"; Portugal, que sempre viveu no feminino, deveria estar agora a deslocar-se no sentido contrário...

Gostei de ouvir.
E. Esperança

Uma boina criativa

Os textos do Luís Filipe Borges são tão ridículos como a imagem que este quis criar para si próprio; uma boina de palhaço faz rir até os mais descrentes, ou melhor, os menos preocupados com a vida, afinal, aquela boina faz o de si para si, e não me venhas agora dizer como o fizeste à dona de casa Sousa Dias que este é um texto umbiguista, porque o sendo, tu terás o umbigo nos próprios pés que é por onde pensas...tu e a tua afamada boina, ou melhor, o adereço do parvo que és. Como tal, retira-te, deixa-nos um pouco em paz e vai soldar chapa com o mesmo boné que fez de ti uma pessoa digna.

jogo de cores para uma mesma estrutura

mondrian
As horizontais e as verticais definem a estrutura; as cores incitam às vozes. mondrian estetizou o quotidiano e, no entanto, ficou prisioneiro de si...

regresso e pensamento


O espaço iluminista morreu? Haverão afinal imagens por toda a parte que deixam a nossa razão ou entendimento manietados por um ritual de sacrifício vibrante nas imagens loucas que se manifestam em nós como uma linguagem que está num espaço privado que não é o nosso?! quem quiser pensar que se esqueça porque, afinal, o primeiro e último pensamento está nos sentidos; restará apenas indagar o sentido obscuro, pois, para além disso, o real morre em si próprio e nas circunstâncias que lhe convém.
Return...

Sonhos

Decidi deixar de perseguir os meus sonhos... combinei um sítio e encontro-me com eles lá...

Sunday, November 05, 2006

Jogos

E, de entre a multidão, ao ver que o enforcado era uma pessoa com os membros amputados, decide gritar pelas letras que faltavam...